segunda-feira, 2 de julho de 2012

Poetisa Nordestina - ZILA MAMEDE (1928-1985)




ZILA MAMEDE
(1928-1985) 

Nasceu na Paraíba mas está mais ligada às letras e à cultura do Rio Grande do Norte, onde viveu a maior parte de sua vida e onde o mar a levou para sempre. O poema Elegia, incluído na presente seleção, é como um prenúncio de seu destino.  Formada em biblioteconomia, tendo exercido cargos de importância no Instituto Nacional do Livro (em Brasília) e como diretora da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Seus principais livros: Rosa de Pedra (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975),A Herança (1984) e Navegos (Poesia reunida 1953-1978).  Poeta sutil, elegante, de um lirismo contido e introvertido, de solidão e paixão mas também, não raras vezes, com um fundo social relativo às temáticas do sertão nordestino. Drummond tinha-a entre suas predileções.

(...) fiquei feliz em ler Exercício da palavra, e até me arrependo de ter
publicado um livro também em 75. Na geração de Zila Mamede nin-
guém fez algo mais importante. Algo tão sólido, tão inovador — sem
chegar ao excesso —, onde ela não perdeu a noção do funcional, que é
básico em arte.  JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Tribuna do Norte, Natal, 22 fev. 1976.)

BILHAR 
       a Ludi e Oswaldo Lamartine

Na medida exata
em que a noite corre
não fico: me ausento
como quem morre

Entre lousa e livro
- único disfarce
que concedo ao tempo =
mudo-me a face

que, no entanto, vária,
inábil, reprimida,
perde-se no encontro
tátil da vida

Bola sete em rude
pano de bilhar
marco meu sem rumo
jogo-de-amar.


PROCISSÃO  

Quando vem a procissão
no seu passo de perdão,

Alcaide, comendador
dominam povo e andor

Cada grupo de irmandade
empunhando uma verdade:

A das Filhas-de-Maria
virgindade em romaria

Do SSmo Sacramento
vermelha de emproamento

Do Senhor Jesus dos Passos
roxo em santos e devassos

Irmãs da Ordem Terceira
terço em mãos de camareiras

Os meninos da Cruzada
fome na barriga inchada

A Banda da Prefeitura
solo e soldo de amargura

Estandartes, confrarias
escondem velhacarias

O Santo vai carregado
pelos donos do mercado

E o povo segue inocente
descalço, nu, paciente:

- A compacta multidão
carente de Deus e pão.

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